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A SAGRADA LITURGIA

O primeiro dever do homem é dar a Deus o culto de adoração, louvor e ação de graças que Lhe é devido. Esse culto tem quatro elementos:

1-  Reconhecer a Deus como nosso Criador e Senhor, porque Ele nos criou e d´Ele dependemos a todo instante. (fim latrêutico)

No sacrifício da missa, é dada a Deus uma adoração absolutamente digna d’Ele, rigorosamente infinita. Esse efeito é sempre produzido infalivelmente, ex opere operato, ainda que a missa seja celebrada por um padre indigno e em pecado mortal. A razão está em que este valor latrêutico ou de adoração depende da dignidade infinita do Sacerdote principal que o oferece, Nosso Senhor Jesus Cristo, e do valor da Vítima oferecida, que é Ele próprio.

2- Agradecer por todos os benefícios que recebemos d´Ele. (fim eucarístico)

Os imensos benefícios de ordem natural e sobrenatural que recebemos de Deus nos fizeram contrair com Ele uma dívida infinita de gratidão. A eternidade inteira seria insuficiente para saldar essa dívida se não tivéssemos outros meios além daqueles que podemos oferecer por nós mesmos.

Mas está à nossa disposição um procedimento para liquidá-la totalmente com infinito saldo a nosso favor: o Santo Sacrifício da Missa. Por ela, oferecemos a Deus Pai um sacrifício eucarístico, ou de ação de graças, que supera infinitamente nossa dívida; porque é o próprio Cristo quem se imola por nós e em nosso lugar dá graças a Deus por seus imensos benefícios. É também uma fonte de novas graças.

3- Pedir perdão por nossas faltas e pecados. (fim satisfatório)

Reparar as ofensas feitas ao Criador é um dever capital. Também neste aspecto o valor da Santa Missa é absolutamente incomparável, já que com ela oferecemos ao Pai a reparação infinita de Cristo com toda sua eficácia redentora.

Mas esse efeito não é aplicado sobre nós em toda sua plenitude infinita (bastaria uma única missa para reparar, com grande superabundância, todos os pecados do mundo e liberar de suas penas todas as almas do purgatório), mas em um grau limitado e finito segundo nossas disposições.

4- Pedir-Lhe o que necessitamos para nossa vida e nossa salvação eterna. (fim impetratório)

Cristo se oferece na Santa Missa a Deus Pai para obter para nós, pelo mérito infinito de sua oblação, todas as graças de vida divina que necessitamos. Está “sempre vivo intercedendo por nós” (Heb. 7, 25), apoiando com seus méritos infinitos nossas súplicas e petições. Por isso, a força impetratória da Santa Missa é incomparável e leva Deus, infalível e imediatamente, a conceder aos homens todas as graças que necessitam. Contudo a concessão efetiva dessas graças está vinculada ao grau de nossas disposições.

Ao incorporar nossas orações à Santa Missa, elas não so­mente entram no rio caudaloso das orações litúrgicas, que já lhes daria uma dignidade e eficácia especial, mas também se unem à oração infinita de Cristo. Deus Pai o escuta sempre: “Eu sei que sempre me escutais” (Jo. 11, 42), e por consideração a Ele nos concederá tudo o que necessitamos.


Em concreto, estes são também os quatro fins da Santa Missa.

Este culto não é somente individual, mas é principalmente um culto público, ordenado e prescrito pela Igreja inspirada pelo Espírito Santo. Esse culto oficial é chamado Liturgia. A palavra Liturgia vem do grego leiton ergon que significa obra ou ministério público.

"A Liturgia é, portanto, o culto divino, público e oficial, realizado pela Igreja e que também santifica os fiéis”. J. G. Treviño, Lecciones practicadas de Liturgia

Ou mais brevemente:

"A Liturgia é o exercício do sacerdócio de Jesus Cristo pela Igreja”. Papa Pio XII, Encíclica Mediator Dei

Elementos da Liturgia

1- Santo Sacrifício da Missa, que é a sua alma e o seu centro;
2- Ofício Divino, que gira ao redor da Missa. O Ofício Divino é chamado também de Breviário, que é o livro que contém as orações oficiais da Igreja que os subdiáconos, diáconos, padres e bispos rezam oito vezes por dia em benefício da Igreja e de todos os seus filhos.
3- Os sacramentos, sacramentais, bênçãos e todos os ritos e cerimônias, símbolos e vestiduras, vasos e lugares sagrados, além dos cantos e melodias que a Igreja usa para concretizar este culto público e solene.

A oração da Igreja

A Liturgia é a teologia transformada em oração. Constitui a própria vida da Igreja, do Corpo Místico de Cristo e, por isso, tem um poder para a santificação das almas verdadeiramente admirável. Por meio da Liturgia católica, ascendem ao céu a adoração, a ação de graças, os pedidos de perdão e de ajuda dos fiéis e, por meio desta mesma Liturgia, descem sobre os homens a misericórdia, ajuda e proteção de Deus.

A liturgia constitui o meio mais poderoso que a Igreja tem para converter as almas, santificá-las e protegê-las. A Liturgia é o meio mais poderoso para comunicar a fé católica no Sacrifício de Cristo renovado sobre o altar. Por esta razão, desde os primeiros séculos se diz lex orandi, lex credendi, ou seja, a lei da oração (o modo de rezar) nos ensina a lei da fé, ou seja, a maneira de rezar e de dar culto a Deus demonstra o que cremos.

Durante séculos, a fé católica foi comunicada por meio da Liturgia, na qual estão concentradas todas as verdades do Credo católico. Por isso, modificar a Liturgia da Missa pode trazer consequências incalculáveis, provocando a alteração da fé dos fiéis, a corrupção da moral e a apostasia. Os povos protestantes são um exemplo disso. Havendo mudado a Liturgia, mudaram a sua fé e se tornaram hereges e, atualmente, ateus em vários lugares. No século XVI, na Inglaterra, o sacerdote herege Thomas Cranmer mudou a Liturgia da Missa do latim para o inglês; uns anos depois, a Inglaterra perdeu a fé católica e impediu a cristianização do mundo opondo-se às nações católicas missionárias como Portugal e Espanha.

Disposições para o Santo Sacrifício da Missa

São João Eudes disse que para celebrar ou participar dignamente em uma missa eram necessárias três eternidades: uma para preparar-se, outra para celebrá-la ou assisti-la e outra para agradecer. Ainda que não possamos chegar a tanto, é certo que toda preparação será pouca por diligente e fervorosa que seja.

As principais disposições são de dois tipos: externas e internas.

Externas: para o padre consistem em seguir perfeitamente as rubricas e cerimônias que a Igreja prescreve. Para o fiel, consistem no respeito, modéstia e atenção com que deve assistir a ela.

Internas: A melhor de todas é identificar-se com Je­sus Cristo, que se imola no altar. Oferecê-lo a Deus Pai e oferecer-se n’Ele, com Ele e por Ele. Esta é a hora de pedir-lhe que nos transforme em pão, para ser alimento de nossos irmãos por meio de nossa entrega total pela caridade. União íntima com Maria junto à cruz; com São João, o discípulo amado; com o padre celebrante, novo Cristo na terra. União com todas as missas que são celebradas no mundo inteiro. Nunca peçamos nada a Deus sem incluir, como preço infinito da graça que desejamos, a seguinte invocação: “Senhor, pelo sangue adorável de Jesus, que neste momento algum padre está elevando no cálice em algum lugar do mundo”.

A Santa Missa celebrada ou assistida com essas disposições é o instrumento de santificação mais importante de todos.

Via Seminario Nuestra Señora Corredentora

EXPLICAÇÃO DAS CERIMÔNIAS DA MISSA

Publicamos abaixo um dos capítulo do livro “O Culto Católico em suas Cerimônias e seus Símbolos”, do Abbé A. Durand.

Esta obra é uma tradução adaptada pelo sr Robson Carvalho (da Missão da FSSPX em Ribeirão Preto-SP), do original francês Le Culte Catholique en ses Cérémonies et ses Symboles.

O livro é de leitura obrigatória para todos os católicos que desejam saber mais sobre todo o simbolismo e desenvolvimento da Missa (Tridentina).

Nessa crise de fé sem precedentes instaurada na Igreja, onde coloca-se a Missa (Nova) como uma festa, uma ceia, uma reunião, um banquete, um simples memorial…..onde o importante é dançar, balançar lencinhos, chorar e ouvir uma música “maneira” ao som de uma guitarra, uma bateria ou um pandeiro….nada mais precioso que conhecer a verdadeira e sã Doutrina Católica.


CAPÍTULO VI

EXPLICAÇÃO DAS CERIMÔNIAS DA MISSA – I PARTE

PREPARAÇÃO AO PÉ DO ALTAR

Os fiéis estão reunidos para o santo Sacrifício; o padre, revestido com os ornamentos sagrados, deixou a sacristia para imolar a Vítima adorável; os anjos, aos milhares, cercam o altar, e do alto dos céus, a Santíssima Trindade considera com amor as grandes maravilhas que vão se operar. Uma voz secreta saída do tabernáculo se faz escutar pelo padre, e lhe diz como outrora disse a Moisés: “Trema ao aproximar- se do meu santuário, pois Eu sou o Senhor”. O temor se apodera, então, de sua alma. Ele se detém ao pé do altar para se preparar pela confiança, o arrependimento e a oração, a fim de celebrar esses mistérios formidáveis do qual nem os próprios anjos se julgaram dignos.

Ele vai imolar o Cordeiro de Deus, mas qual direito de vida ou de morte ele tem sobre o Deus que lhe extraiu do nada? O sinal da cruz que ele faz, o tranqüiliza, pois ele vem: em nome do Pai, que após ter entregue seu Filho à morte, deu ao padre sua autoridade para Lhe oferecer esse mesmo Filho em sacrifício; em nome do Filho, o qual ele vai tomar o lugar; em nome do Espírito Santo que formou no seio imaculado de Maria, a Vítima de nossa salvação, e por quem essa grande Vítima se ofereceu sobre o Calvário.

Esses pensamentos afiançam o padre. Seu olhar, iluminado pela fé, vislumbra acima do altar da terra, nos esplendores dos céus, outro altar misterioso. Pois é no seio do Pai, verdadeiro templo, sobre a substância do Verbo, verdadeiro altar, e pelo Espírito Santo, verdadeiro fogo sagrado, que Jesus Cristo, a Vítima, se oferece à majestade de Deus. Em instantes ele vai se aproximar desse sublime altar. Com este pensamento, um grito de alegria e de entusiasmo escapa de seu coração:
Subirei ao altar de Deus. Do Deus que alegra a minha juventude
Introibo ad altare Dei. Ad Deum qui lætificat juventutem meam
Sim, vou atravessar os nove coros dos anjos, avançar diante desse grande Deus, cujo trono repousa sobre as asas abrasadas dos Querubins, no seio da luz e da glória. Eu, criatura falha, não somente me aproximarei de meu Deus, mas repousarei sobre seu coração, pois entrarei em seu coração, verdadeiro altar da imolação.

Eis que novamente o medo toma conta do padre. Ele vai, subindo os degraus do altar, subir ao céu; mas, “Quem é digno de subir ao céu, exclama o Rei Profeta, se não aquele que tem o coração puro e as mãos inocentes”. Sem dúvida, o ministro de Deus não avança rumo ao altar com um coração profanado, mas ele sabe que, Aquele do qual ele vai se aproximar é a santidade infinita, que com o olhar encontra mancha entre seus anjos e santos. Ele se recorda desta palavra de um grande doutor, “que o padre no altar deveria poder, por sua santidade, ocupar um lugar de honra no meio dos príncipes da corte celeste”, por isso ele exclama:
Julga-me, ó Deus, e separa a minha causa duma gente não santa. Livra-me do homem iníquo e enganador
Judica-me, Deus, et discerne causam meam de gente non sancta: ab homine iniquo et doloso erue me
Tu que és, ó Deus, a minha fortaleza, porque me repeliste? E porque hei-de eu andar triste, enquanto me aflige o inimigo?
Quia tu es, Deus, fortitudo mea: quare me repulisti et quare tristis incedo, dum affligit me inimicus?
O padre sente que o Senhor pronunciou sobre ele um julgamento de misericórdia, a confiança renasce em seu coração. Ele aproximará do altar, mas precisa que uma luz divina ilumine seus passos. Ele a pede para Deus: “envia-me o socorro da verdadeira luz, que é o Espírito de Deus, e da verdadeira luminosidade, que é seu Filho; pelo favor desses guias me aproximarei desta santa montanha, que é Vós mesmo. Penetrarei em seu santuário que é vosso seio, aonde Jesus Cristo vai se imolar, e entrarei até o altar sublime que lá reside. Vosso verdadeiro altar que é vosso Filho:
Envia a Tua luz e a Tua verdade; estas me conduzirão e me levarão ao Teu santo monte e aos Teus tabernáculos. E aproximar-me-ei do altar de Deus, do Deus que alegra a minha mocidade
Emitte lucem tuam et veritatem tuam: ipsa me deduxerunt e adduxerunt in montem sanctum tuum, et in tabernacula tua. Et introibo ad altare Dei, ad Deum qui lætificat juventutem meam
Pensando em um ministério tão santo, ele teme que Deus não o repare. Sem turvar-se, ele se encoraja e diz:
Ó Deus, Deus meu, eu Te louvarei com a cítara. Por que estás triste, minha alma? E porque me inquietas?
Confitebor tibi in cithara Deus, Deus meus: quare tristis es anima mea, et quare conturbas me? 
Espera em Deus, porque eu ainda O hei-de louvar, a Ele que é a minha salvação e o meu Deus
Spera in Deo, quoniam adhuc confitebor illi: salutare vultus mei, et Deus meus
O nosso auxílio está no nome do Senhor
Adjutorium nostrum in nomine Domine 
Que fez o Céu e a Terra
Qui fecit caelum et terram
É no nome do Senhor que o padre coloca toda sua confiança. Ele sabe que nada é impossível para Aquele que fez o céu e a terra, e que nenhuma indignidade lhe fará um rejeitado, quando na verdade ela é coberta pelos méritos de Jesus Cristo. Ele se os aplica pelo sinal da cruz que ele forma sobre si, pronunciando essas palavras.

Contudo, a alma do padre ainda está sobrecarregada de tristeza. Ele não saberia esquecer, nesse momento, que semelhante ao seu divino Mestre, “ele se tornou maldito para seus irmãos”, e que, sobre seus fracos ombros, ele carrega os crimes do mundo inteiro. Esse pesado fardo, no jardim das Oliveiras, lança em terra, banha de sangue nosso divino Salvador. Sobre o caminho do Calvário, três vezes ele cai sob esse peso esmagador, e esta carga sob o qual se inclina o Deus poderoso, o padre poderia a carregar sem nada temer por sua fraqueza?

Quem permaneceria indiferente em face dessa cena: o padre tendo as mãos juntas e ligadas como um criminoso na presença de seu juiz. Ele não ousa mais olhar o céu que ele saudava antes. Mas, se prostrando profundamente, a face contra a terra, ele, o eleito do Senhor, se bate no peito como o publicano do Evangelho. Escutemos as palavras que saem de sua boca:
Eu pecador me confesso a Deus todo-poderoso, à bem-aventurada sempre Virgem Maria, ao bem-aventurado São Miguel Arcanjo, ao bem-aventurado S. João Batista, aos santos apóstolos S. Pedro e S. Paulo, a todos os Santos e a vós, Padre, porque pequei muitas vezes, por pensamentos, palavras e obras, por minha culpa, minha culpa, minha máxima culpa. Portanto, rogo à bem-aventurada Virgem Maria, ao bem-aventurado S. Miguel Arcanjo, ao bem-aventurado S. João Batista, aos santos apóstolos S. Pedro e S. Paulo, a todos os Santos e a vós, Padre, que rogueis a Deus Nosso Senhor por mim 
Confiteor Deo omnipotenti, beatæ Mariæ semper Virgini, beato Michaéli Archangelo, beato Joanni Baptistæ, sanctis Apostolis Petro et Paulo, omnibus Sanctis, et tibi, pater: quia peccavi nimis cogitatione, verbo, et opere: percutiunt sibi pectus ter, dicentes: mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa. Ideo precor beatam Mariam semper Virginem, beatum Michælem Archangelum, beatum Joannem Baptistam, sanctos Apostolos Petrum et Paulum, omnes Sanctos, et te, pater, orare pro me ad Dominum Deum nostrum
Que espetáculo sublime! A Igreja da terra unida à Igreja do céu, segundo a expressão de Tertuliano, forma como que um batalhão de um exército, que cerca a misericórdia divina e lhe faz uma agradável violência. Nos céus, Maria, os anjos, os Apóstolos e todos os santos, prostrados ao pé do trono de Deus, pedem graças para o padre que, humildemente inclinado, espera seu perdão. Enquanto que nós rezamos sobre a terra, nossa oração é repetida por todos os bem-aventurados.
Que Deus onipotente se compadeça de vós, que vos perdoe os pecados e vos conduza à vida eterna.
Misereatur vestri omnipotens Deus, et dimissis peccatis vestris, perducat vos ad vitam æternam.
A estas palavras o padre se levanta. Ele agora pode olhar o céu com confiança, pois Deus lhe perdoou a pedido dos céus e da terra reunidos. Ele vai, então, subir a santa montanha, onde Deus deve descer como sobre um novo Sinai. Enquanto que sozinho com o Senhor ele recita as secretas comunicações de seu amor, os fiéis permanecerão lá em baixo no pé da montanha, assim como outrora estiveram os israelitas. Que eles não se esqueçam que aqueles receberam a ordem de lavar suas vestes, de se purificar, eles mesmos, a fim de serem menos indignos de se aproximar do Sinai onde Deus vai manifestar sua glória! Qual pureza não exige de nós esse altar que se tornará, tão logo, a montanha santa do Calvário! Se qualquer mancha marca nossa alma, as apaguemos pelo arrependimento, e recitemos, por nossa vez, o confiteor com dor e compunção.

A essas palavras – minha culpa – se bate no peito. Esse ato simbólico de arrepender-se, significa que queremos quebrar nosso coração, a fim de que Deus faça dele um novo coração, um coração que possa lhe agradar.

“Pela tríplice repetição do mea culpa, diz Monsenhor Olier, acusamos três tipos de pecados, aqueles do pensamento, das palavras e das obras, cometidos contra as três pessoas da Santíssima Trindade. Na última vez, se diz: mea maxima culpa, pela razão de que os pecados contra o Espírito Santos se redimem dificilmente nesta vida e na outra. Os pecados do pensamento se dirigem ao Pai, aqueles das palavras ao Filho, que é a palavra do Pai; e os pecados das obras ao Espírito Santo, que é o operador contínuo das boas obras em nós”. Que profundidade! Que filosofia nas orações da Igreja!

Tal é a preparação que a Igreja exige do padre e dos fiéis, para melhor se penetrar na grandeza das coisas que vão se passar no altar. Agora, ministro do Senhor, suba com confiança os degraus que vos separam do Santo dos santos:
Se Vos tornardes para nós, Senhor, dar-nos-ei a vida
Deus, tu conversus vivificabis nos 
O Vosso povo alegrar-se-á em Vós
Et plebs tua lætabitur in te
Mostrai-nos, Senhor, a Vossa misericórdia
Ostende nobis Domine, misericordiam tuam  
E dai-nos a Vossa salvação
Et salutare tuum da nobis 
Senhor, ouvi a minha oração
Domine, exuadi orationem meam 
E fazei subir até Vós o meu clamor
Et clamor meus ad te veniat 
O Senhor seja convosco.
Dominus vobiscum. 
E com o vosso espírito.
Et cum spiritu tuo.
Só, então, o padre sobe, ainda tremendo, os degraus do santuário. A terra que ele caminha não é por vez santa? O sigamos com atenção e respeito para estudar os mistérios que vão ali se operar.

Via Dominus Est

NECESSIDADE DE SE ENTENDER AS ORAÇÕES E AS CERIMÔNIAS DA SANTA MISSA

Extraído do Catecismo da Santa Missa

É necessário conhecer profundamente a Missa?
Um ato de religião praticado com tanta frequência, tão precioso em suas graças, e tão consolador em seus frutos, é desejoso que se conheça o mais possível, na medida das nossas capacidades.
Como podemos conhecer mais profundamente a Santa Missa?
Podemos conhecê-la mais profundamente estudando seus mistérios, seus dogmas, a moral que ela encerra, e até os menores detalhes de suas cerimônias e orações.
Para que devemos conhecer tudo isto?
Para que a Missa, que é o centro do culto católico, desperte os mais vivos sentimentos de religião e de piedade.
Que mais devemos conhecer da Missa?
Devemos conhecer suas palavras sagradas em que encontramos todo o sabor da unção de que estão repletas; cada ação e cada movimento do sacerdote; cada palavra que ele pronuncia para lembrar nossa alma e nosso coração que um Deus se imola para nós, e que nós também devemos nos imolar com Ele e por Ele.
Com que estado de espírito devemos assistir a Santa Missa?
Devemos deixar fora do santuário a indiferença e o tédio, a dissipação e o escândalo, e sermos, no templo, adoradores em espírito e verdade.
Deus exige de todos os fiéis uma instrução profunda e detalhada da Missa?
Não. Deus supre a sensibilidade da fé ao conhecimento que não foi possível adquirir e jamais irá desprezar o sacrifício de um coração arrependido e humilhado. (Sl 50, 19)
Quais as disposições essenciais e suficientes para aproveitarmos do santo sacrifício da Missa?
Devemos assistir a Santa Missa com a alma penetrada de dor pelas faltas cometidas, e nos aproximarmos confiadamente deste trono da graça, unindo-nos à vítima, Nosso Senhor Jesus Cristo, e à intenção da Igreja, na pessoa do sacerdote, e por seu ministério.
Que mais é salutar conhecer?
Devemos saber as grandes vantagens espirituais que um conhecimento mais íntimo da Santa Missa proporciona aos fiéis, com a explicação literal de suas orações e cerimônias.
A Igreja, acaso, ocultaria aos fiéis algum mistério da Santa Missa?
Não. Na Igreja nada há de oculto e ela jamais pretendeu ocultar qualquer mistério aos fiéis, seja da Santa Missa, como de qualquer outra cerimônia litúrgica, como será demonstrado neste Catecismo.
Qual a principal preocupação da Igreja quanto aos mistérios da Missa?
A Igreja somente teme que o pouco discernimento sobre os mistérios possa causar má interpretação às palavras neles contidas.
Como a Igreja procura evitar possíveis más interpretações?
Apresentando sempre explicações claras dos mistérios aos fiéis.
Há orientação explícita da Igreja para explicar os mistérios da Missa aos fiéis?
Sim. Os Concílios de Mogúncia, de Colônia e de Trento, como mais adiante veremos, ordenaram claramente que se prestassem aos fiéis as explicações necessárias para o melhor entendimento possível dos mistérios da Santa Missa, evitando, assim, más interpretações.
Que outras medidas tomou a Igreja para facilitar o entendimento dos mistérios da Missa?
A Igreja colocou à disposição de todos os fiéis o ordinário da Missa, e impôs como dever dos sacerdotes a explicação das orações e das cerimônias da Santa Missa.
Além do ordinário da Missa, há outras obras específicas sobre o Santo Sacrifício?
Sim; há inúmeras obras ao alcance dos fiéis sobre a Santa Missa, publicadas através dos séculos.
A explicação da Missa é dever somente dos sacerdotes?
Não. Além dos sacerdotes é dever também dos fiéis, e seremos felizes mesmo se, com pouco conhecimento, colocarmos algumas pedras nos muros de Jerusalém, enquanto outros manejam com mão hábil a espada da palavra santa para cuidar da sua defesa.
Qual o melhor método para nos aprofundarmos no conhecimento da Santa Missa?
Para compreendermos exatamente o verdadeiro sentido das orações da Santa Missa, é necessário conhecermos todas, palavra por palavra, o significado de cada termo, dos dogmas e dos mistérios nelas contidos.
Que mais é necessário conhecer sobre as orações?
É preciso, também, conhecer os objetivos da Igreja ao estabelecer as orações, bem como deduzir ao máximo possível as intenções dos santos padres, dos antigos escritos eclesiásticos e da tradição. Para isto torna-se necessária também uma explicação histórica, literal e dogmática de tudo o que constitui a Missa.

A MISSA TRIDENTINA

A Missa Tridentina consiste na celebração da Santa Missa segundo o rito promulgado pelo Papa São Pio V no ano 1570 por meio da Bula Quo Primum Tempore.
A Missa de São Pio V tem suas origens nas mais antigas tradições apostólicas e alimentou a alma dos santos mais importantes da história da Igreja durante vários séculos.
Este rito provém visivelmente do coração de nossa Santa Madre Igreja e é o fruto de uma longa tradição. Expressa santamente a doutrina católica do Santo Sacrifício da Missa e foi canonizado por São Pio V definitivamente. Ele o estabeleceu como a maneira oficial de rezar a Santa Missa, válida para todos os padres de rito romano de todos os tempos.

Elementos da Missa Tridentina

A Missa Católica Tradicional chamada Missa de Sempre, Missa Tridentina ou Missa de São Pio V é composta por duas partes, a saber, a parte essencial, que são os elementos instituídos por Nosso Senhor Jesus Cristo, e as orações, palavras e cerimônias que a acompanham.
Os elementos essenciais da Santa Missa, que foram instituídos pelo próprio Jesus na Última Ceia e são:

  • A matéria: pão e vinho;
  • A forma, ou seja, as palavras: “Este é o meu Corpo” e “Este é o Cálice do meu Sangue…”;
  • Um padre validamente ordenado que,
  • tenha a intenção de fazer o que a Igreja faz na confecção deste Sacramento.
As palavras e cerimônias que acompanham esses elementos essenciais se desenvolveram através dos séculos até alcançar a forma que chegou aos nossos dias.
Todas as orações e cerimônias em torno às palavras da consagração foram introduzidas pela Santa Igreja para realçar a majestade deste grande mistério, para instruir-nos, aumentar nossa fé e inflamar nossa devoção. “Não existe em toda a Cristandade um rito tão venerável como o do Missal Romano” diz um dos mais sábios liturgistas (Fortescue).


"Daria até a última gota de meu sangue pela menor prática da Igreja." Santa Teresa
História das Cerimônias da Santa Missa
Durante os séculos I e II, essas palavras de Cristo estiveram rodeadas por uma liturgia inicial que, pouco a pouco, foi germinando no Oriente e no Ocidente do Império Romano. Todas as partes principais da Missa apareceram já no século III e, no século IV, o rito romano ficou plenamente conformado, durante o pontificado do Papa São Dâmaso (366-384).
Contudo, até São Gregório Magno (590-604) não existia um Missal Oficial com os textos das missas do ano. O líber Sacramentorum foi redigido, por encargo de São Gregório no princípio de seu pontificado, para uso das Stationes que tinham lugar em Roma, quer dizer, para a liturgia pontifical. Esse Missal contém praticamente a mesma Missa Tradicional tal como chegou a nossos dias, posto que as modificações ou adições que São Pio V (1566-1572) efetuou ao codificar seu Missal Romano foram muito pequenas.
Portanto, podemos assegurar que a Missa que atualmente é chamada de São Pio V não é outra senão o rito romano tal qual o encontramos, em suas partes mais importantes, no século IV, tendo sido posteriormente escrito em forma de Missal pela primeira vez por São Gregório Magno.
Cânon da Missa

O Cânon da Missa, excetuados alguns retoques feitos por São Gregório Magno, alcançou com São Gelásio I (492-496) a forma que conserva até hoje. Os Romanos Pontífices não deixaram de insistir desde o século V sobre a importância de adotar o Canon Missae Romanae, dado que ele remonta a ninguém menos que o Apóstolo São Pedro.
Com efeito, por causa da lei do arcano (que obrigava, na época das perseguições, a manter sigilo especial sobre as principais verdades da fé), os textos mais antigos do Cânon da missa datam do século IV, mas, o Concílio de Trento nos ensina que este remonta aos próprios apóstolos.
Codificação feita por São Pio V
Assim, São Pio V codificou a Missa Romana na sua forma mais pura segundo a indicação do Concílio de Trento (1545-1563):


"O sacrifício cumpra-se segundo o mesmo rito para todos e por todos, de forma que a Igreja de Deus não tenha mais do que uma mesma língua… que os missais sejam restaurados segundo o uso e costumes antigos da Missa Romana”.
O Missal assim restaurado foi promulgado de forma particularmente solene no dia 19 de Julho de 1570 pela Bula Quo Primum Tempore. A bula precisa bastante claramente que não estabelece um novo rito, mas “um missal revisado e corrigido”.
Por que o Latim?
O uso do latim “é um belo e manifesto sinal de unidade, além de ser um antídoto efetivo contra qualquer corrupção da verdade doutrinal” (Papa Pio XII, Encíclica Mediator Dei).
O objetivo de São Pio V ao mandar codificar a Missa (no século XVI) foi o de proteger a unidade da Igreja, assegurada pela unidade no culto católico. Para evitar a disparidade de rito, contribuiu muito a uniformidade no idioma, preservando a Igreja não somente contra o cisma mas também contra a possível introdução de erros doutrinais.
Sinal de unidade e universalidade

A Missa em latim não é uma maneira seletiva ou nova de celebrar, nem é elitista ou exclusivista, muito pelo contrário, é o modo católico (universal, em grego), apto para ser escutado por qualquer pessoa batizada do mundo sem importar sua nacionalidade.
Durante séculos, um católico podia assistir à Missa em qualquer lugar do mundo e sempre encontrava a mesma forma universal de rezá-la e, assim, de cumprir com o preceito dominical. Se pudéssemos viajar através do tempo, encontraríamos a mesma verdade: uma Missa rezada por um sacerdote católico que vivesse em Roma no ano 570 seria igual a uma rezada por um sacerdote que vivesse em Nagasaki em 1940 ou a de um padre da FSSPX no ano 2017.
Este fato reflete claramente duas das quatro notas da Igreja Católica: sua unidade e sua catolicidade (universalidade) em relação ao tempo e ao espaço.
Antídoto contra os erros doutrinais

A história nos demonstra que os vocábulos dos idiomas mudam de significado com o tempo e que surgem modismos provenientes do linguajar popular. Mas o latim, sendo uma língua morta, não se modifica através dos tempos e lugares, de modo que seu uso auxilia na perpetuidade e universalidade dos ritos católicos, presentes em todas as nações do mundo e sob uma enorme diversidade de idiomas, costumes e tempos.
Essa característica também ajuda a proteger a fé contra os erros doutrinais. Com efeito, o Papa Pio XII declarou expressamente que a Sagrada Liturgia está intimamente vinculada às verdades da Fé Católica e que, portanto, deve conformar-se a ela e expressar essas verdades. De tal forma que, assim como não podemos, sob o pretexto de acomodar a liturgia às exigências dos tempos modernos, comprometer nenhuma verdade de fé, é necessário também conservar inalterável a liturgia para que ela continue salvaguardando essa integridade da fé (Encíclica Mediator Dei).
Até os protestantes reconheceram a conexão entre os ensinamentos da Igreja e a Missa, a tal ponto que Lutero acreditou que, eliminando a Missa, poderia derrotar o Papado.
Os primeiros idiomas usados na Missa

A Missa era rezada originalmente em aramaico, que era a língua falada por Cristo e pelos Apóstolos. As expressões: “Amém, Aleluia, Hosana e Sabbaoth”são palavras aramaicas que ainda existem na Santa Missa.
Quando a Igreja se estendeu por todo o mundo pagão no século I, adotou o grego em sua liturgia, porque este era o idioma internacional do Império Romano, como o inglês o é hoje. O uso do grego continuou até o século II e parte do século III. O Kyrie eléison e o símbolo litúrgico “IHS” (derivado da palavra Jesus em grego) são uma prova do uso deste idioma na liturgia.
Contudo, ao redor do ano 250, a Missa já era rezada geralmente em latim na parte ocidental do Império Romano, incluindo as cidades do Norte da África. Com a fragmentação do Império e as invasões bárbaras, o latim deixou de ser uma língua falada entre os séculos VII e IX; porém, a Missa continuou sendo rezada em latim, porque grande parte da liturgia havia sido criada nesse idioma. Os Papas e os outros Santos Padres não viram nenhuma necessidade de adotar as novas línguas vernáculas que estavam surgindo ao redor do mundo conhecido.
O uso do latim foi também um meio providencial, porque, apesar de ser uma língua morta, serviu como meio de comunicação internacional e como sinal de unidade da Igreja e do continente europeu através dos séculos.

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